Comidas nojentas

Você não precisa ir parar numa feira provinciana de Taiwan para comer uma deliciosa comida nojenta. Queijos são nojentos e deliciosos. Quanto mais cheios de fungos (e, portanto, quanto mais podres), mais saborosos, eu diria. O fedor do queijo não é muito diferente dos fedores que evitamos no dia-a-dia: muitos queijos são uma mistura pungente de chulé com peido. Existe um queijo, inclusive, que é feito com a exata mesma bactéria que reage com nosso suor e produz os infames cecês. O nome dele é Limburger.

Quando alguém solta um pum na sua frente, a reação é de nojo. A reação não é racional, e sim fisiologicamente automática. Quando um odor com toques de peido sai de um queijo, porém, instantaneamente perdemos a repulsa e passamos a gostar da sensação. Isso, claro pra quem gosta de queijo.

É um fenômeno interessante, pois ele mostra que “fedor” é um conceito relativo, contextual. Precisamos ver (ou saber) que aquele cheiro saiu da bunda de outrem e não de alguma iguaria francesa, para ficarmos com ânsia de vômito. É claro que um Camembert ou um Munster muito tempo fora da geladeira pode se tornar uma experiência um pouco desagradável dependendo do clima e da ausência de janelas no recinto, mas, gastronomicamente, a relatividade do fedor abriu possibilidades diversas, algumas um tanto exageradas.

Uma delas é o Surströmming, um aperitivo sueco inacreditavelmente nojento. Surströmming é, basicamente, um peixe que ficou apodrecendo meses num barril. Apodrecer coisas é um jeito milenar de fazer comidas, mas apodrecer um peixe é coisa de gente retardada. O Surströmming é vendido em latas que, frenquentemente, incham com os gases da putrefação ainda em andamento e é, por causa disso, proibido de circular em aviões, dado ao perigo eminente de explosão. O Surströmming é tão fedido que ninguém come ele dentro de casa, só em piqueniques. A descrição do seu aroma é uma mistura de ovo podre com vinagre e manteiga vencida. Uma explosão de sabores!

surstromming 300x225 Comidas nojentas

Esses suecos são doentes.

Ainda assim, eu consigo entender (acho) alguém que goste de comer Surströmming. E isso se deve à descrição do seu gosto. Ovo, vinagre e manteiga são alimentos que comemos diariamente. Ovo podre e manteiga vencida não, mas isso é para quem quer um pouco de emoção (imagino). As características do Surströmming, apesar de pútreas, não fogem do universo gastronômico. Já o Hákarl, uma comida islandesa, é um caso um pouco mais complexo.

O Hákarl é muito parecido com o Surströmming, pois ele também é peixe podre. Mais especificamente, tubarão, carne que, todo mundo sabe, já é uma merda mesmo estando fresca. O Hákarl é tão podre que o tubarão perde todos seus aromas orgânicos. No lugar deles, ele adquire um gosto forte de amônia, aquela substância presente em abundância na nossa urina. O Hákarl dá todo um novo significado insólito ao termo “carne mijada”, que eu nunca poderia ter imaginado. Os islandeses me supreendem a cada dia com a sua produção ininterrupta de coisas intragáveis.

bjork 300x201 Comidas nojentas

Hákaaaaaaaaaaaarl

Eu gosto de imaginar como foram concebida todas essas comidas nojentas. Peguemos o Hákarl como exemplo. O advento do Hákarl foi um acidente? Alguém caçou um tubarão e deixou ele apodrecendo num galpão? Ou será que alguém pensou: “será que esse tubarão fica melhor se a gente deixar ele curtindo no ar um pouquinho”? Por que alguém teria pensado nisso, aliás? Se foi, por outro lado, um acidente, como se deu o passo entre “tubarão acidentalmente podre” e “comer tubarão podre”? Se eu deixasse um bife na gaveta da minha cozinha e, meses depois, ele ficasse com cheiro de mijo, eu nunca iria comê-lo. Acho que é uma coisa instintiva, sei lá. Mas, pelo jeito, isso não aconteceu com o islandes que caçou um tubarão e esqueceu de jogá-lo fora. Quer, dizer, considerando que o Hákarl foi um acidente, e não uma invenção deliberada. O Hákarl é um duplo mistério: um mistério que ronda as suas origens, e outro que ronda sua popularidade. Na boa, Hákarl não dá.

5 Comentários

Deixe um Comentário