Saiu na chuva é pra se molhar (a não ser que “se molhar” seja sinônimo de estupro)

Junto com a já aclamada videocassetada, as tradicionais telenovelas e o odiável Bruno de Lucca, a rede Globo de televisão resolveu, na última semana, incluir mais uma atração em sua grade de horários: o estupro. Ok, o justo é dizer “suposto estupro”, porque a cena se deu de noite, debaixo de um edredon e não dá, portanto, para constatar direito o que aconteceu ali. Televisão e reality show é assim: realidade e ficção se mesclam e tornam-se indiscerníveis. Contudo, mesmo que o moço não tenha feito nada com a moça “na vida real”, a ficção que se vendeu foi do casal se pegando, a moça dormindo e o moço continuando a fazer uns lances nela. Ou seja, estupro sem tirar nem por, transmitido para todo mundo ver e curtir em rede nacional. Sim, muitos filmes e programas de TV já retrataram cenas de estupro, mas sempre, pelo que eu me lembre, como um lance incômodo, chocante, nojento – uma cena feita para você assistir e dizer: “Nossa, que bosta, aquele personagem está sendo estuprado”. A Globo, por sua vez, inaugurou o estupro como uma atração divertida e até mesmo romântica, a julgar pelo comentário retardado do Pedro Bial: “o amor é lindo”.

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o amor é lindo

Suposto ou não, vale lembrar que, a não ser que o casal tivesse encenado todo o rolê (o que é uma hipótese meio ridícula), ou o cara estivesse – sabe-se lá porque – dando joelhadas no colchão (ou fazendo algo igualmente não abusivo), qualquer outra coisa que tenha acontecido ali se configuraria como estupro, legalmente falando. Para quem não sabe, pinto na xoxota é apenas um dos muitos jeitos de estuprar alguém. Bolinadas não consentidas, esfregações indesejadas, “estupro” é o nome que se dá a todas essas coisas, dado que todas essas coisas são, enfim, escrotas.

Essa história do Big Brother foi mais um daqueles motivos para acreditar que a humanidade não presta. Fora o lance do “estupro na TV” em si, fato já deletério o bastante, ainda fomos obrigados a aturar uma horda de opiniões ridículas, transformando a internet num container planetário de bosta, com suas postagens de Facebook e comentários da Folha. Entre aqueles que não se horrorizaram com o causo, alastrou-se a ideia de que a moça supostamente estuprada não podia reclamar do acontecido, pois, com suas roupas inadequadas e provocações sexuais, ela deveria saber que o próximo passo era, obviamente, um cara que ela mal conhecia passando-lhe o pinto enquanto ela dormia – toda uma lógica horrorosa do “saiu na chuva é pra se molhar”. Em outras palavras, deveríamos considerar a fraqueza da carne alheia: o sujeito estava lá, de pinto duro e com uma bunda na sua frente, o que mais ele tinha pra fazer, senão iniciar-se num natural estuprinho? Para as pessoas que acham essa opinião razoável, eu gostaria de pedir um momento de suas atenções.

Quando nós, meninos, chegamos numa certa idade, descobrimos uma prática instigante e maravilhosa: a masturbação. Na época, eu a conheci por um nome mais legal: punheta. Quando um moleque descobre a punheta, fodeu. É punheta de manhã antes de ir pra escola, punheta de tarde quando chega da escola, punheta de noite antes de dormir, mil punhetas para passar o tempo num fim de semana chuvoso. É punheta até seu pinto ganhar vida e dizer: “Cara, chega, vai ler um livro!”.

Em um dado momento, você de fato cansava de tanta punheta, mas logo depois um novo cenário configurava-se em sua vida: aquelas meninas do seu colégio, antes garotas pré-adolescentes, começavam a ganhar peito. Meu, que lance. Sempre tinha aquela com os maiores seios, e a coitada, invariavelmente, ganhava o codinome “Peitos”, que passava a ficar anexado junto ao seu apelido. Se era Dani, Dani Peitos. Ju, Ju Peitos, e assim por diante. Claro, sendo você apenas um menino idiota e sem traquejo, era muito difícil fazer uma menina mostrar-lhe o busto, então tudo o que restava era imaginar como eles seriam – o formato de cada seio, o desenho dos mamilos, etc. Fazendo um tremendo esforço criativo, confabulávamos sobre o que estaria por trás daqueles incontáveis decotes, num processo que eu gosto de chamar de “tetas especulativas” – conceito que, aliás, daria um bom livro de psicologia. Com “bom” eu quero dizer um livro completamente inútil e trivial, mas enfim.

Embora viciante, os meninos vão descobrindo aos poucos que bater punheta não é apenas legal como saudável. A não ser que você seja um punheteiro compulsivo, masturbar-se é divertido, eletrizante, além de ser uma curiosa experiência de auto-conhecimento. Além disso, masturbação é um belo remédio para quando você está com muito tesão e não sabe o que fazer, desde que você não esteja em público, é claro. Não me vá bater uma bronha no metrô, seu pervertido!

Se a moça do Big Brother foi provocativa, roçou a bunda no colo do moço, enfiou a mão nas suas bolas e depois disse que ia dormir, nada disso justifica um estupro, nem deveria nos fazer pensar que ela estivesse na eminência de ser estuprada. Em primeiro lugar, não somos cachorros e sim seres humanos: controlamos instintos, pensamos antes de agir. Queremos cagar mas não cagamos: ao invés disso, esperamos chegar numa privada. Ninguém sai pelas ruas se borrando nas calças, nem muito menos se ouve: “esse daí se cagou todo… também, o que mais ele queria depois de almoçar uma feijoada? Saiu na chuva é pra se molhar!”. Da mesma forma, queremos transar mas não transamos, até que alguém queira transar com você. Não é nenhum desafio, o de não transar: eu, que tenho 26 anos, passei a maior parte da minha vida sem transar e foi sussa. Sei lá, teve uns dias que foram frustrantes, mas não frustrantes do tipo “putz, acho que vou estuprar alguém”. Foram mais “to com tesão… bem, foda-se, vou jogar um Street Fighter”. Agora, supondo que você se encontre numa posição crítica e excepcional, em que o tesão se tornou insuportável e tomou conta da sua razão, existe um belo jeito de contornar a situação: vá a um lugar privado e bata uma bronha. No caso do Big Brother, não existe lugar privado, mas ainda assim é bater bronha em rede nacional vs. estuprar alguém em rede nacional. Eu sei, deve ser foda descabelar o palhaço para um país inteiro mas, meu, saiu na chuva é pra se molhar!

É melhor bater punheta do que transar com alguém? Óbvio que não, mas é infinitamente melhor do que estuprar uma pessoa que está dormindo – melhor pra você e mais ainda pra pessoa, coitada. Além da punheta, entre a provocação e o estupro, existe uma miríade de possibilidades e alternativas – entre elas, esperar a moça acordar para que os dois continuem a provocação mútua. Dizer que a moça foi culpada por ter sido estuprada é o mesmo que culpar um atropelado por estar atravessando a rua, só que pior porque o segundo caso pode ter sido um trágico acidente, enquanto que o primeiro, bem… digamos que é meio difícil estuprar alguém “acidentalmente”.

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Mal aí gents, eu estuprei mas foi sem querer!

Há uns dois anos atrás, eu li uma notícia sobre uma menina somaliana que, após ser estuprada, foi acusada de adultério pela milícia islâmica e acabou apedrejada até a morte num estádio lotado, com mais de 1000 espectadores. A lógica de responsabilizar a vítima pelo próprio infortúnio é uma que, desde o maldito BBB do estupro, tenho ouvido não só dos recônditos anônimos da internet (onde todo mundo só fala merda), como de conhecidos. Não aguento mais ser buzinado com opiniões falaciosas e doentias. Sério, que bosta.

10 Comentários

    Suza, só corrigindo, quando um moleque descobre a punheta, não fodeu, só punhetou mesmo.

    • c9 o que eu digo, deve mesmo de existir uma tense3o sauxel entre voceas os dois. Mas aconselho-te je1 para ires devagar que ele assusta-se com facilidade. E depois fica “stand down”

    Estamos vivendo nas trevas, meu caro. Não se iluda.

  • Aposto que vc escolhia a Chun Li.

  • Cara eu ri muito com seu texto…

  • Suza, parabéns. Voltou com tudo!

  • Aê. Gosto quando você se manifesta no seu blog, fico feliz que tenha voltado. Sobre esse lance todo, além de todos os absurdos que você pontuou de maneira tão clara, existe um detalhe sui generis que deixa a parada ainda mais bizarra. A menina foi estuprada dormindo, então ela não sabia que foi estuprada quando acordou. Mas o Brasil inteiro sabia. Ou seja, houve um lapso de tempo em que todo mundo sabia que ela tinha sido estuprada menos ela. Ela foi a última a saber que foi estuprada. Sei lá, isso é muito bizarro.

  • Pô, hoje, ao escrever um post pro meu blog sobre os insetos que teimam em me atacar no verão, lembrei de você, Suza, pois me pareceu um tema suziano, digamos assim, embora teu humor inato esteja anos-luz à frente do meu. E assim, digitei http://www.suza.com.br e vim parar aqui. Muito bom o post sobre essa bosta de BBB. Melhor do que todos os que li de intelectuais de esquerda indignados, que têm razão na indignação, mas são tão chatos! (só de falar em BBB eu perco o humor).

    Enfim, muito bom tb o post sobre os neandertais. Agora que me lembrei, vou colocar seu blog-site lá na minha lista no meu blog.

    abs,
    Eduardo

  • ela disse depois que o sexo foi consentido,disse para os produtores do programa,e para o delegado de policia,que estupro foi esse?que mulher não sentiria um homem de 80 kgs em cima dela?

  • Acho que na verdade isso foi um golpe publicitário da emissora só para o programa ganhar mais audiência. Esse é o tipo de coisa é realmente o que elas fazem. Acho que o conceito que você também passou tem uma certa razão: o das emissoras no Brasil quererem vender o estupro como uma coisa normal em novelas, filmes etc… Mas acho que estas mesmas emissoras esqueceram de ver o lado de quem realmente passou por esse tipo de coisa e os danos que foram causados na vida destas pessoas.
    Não me surpreende o porque de tantas coisas ruins acontecerem no nosso dia a dia, isso ocorre justamente porque o povo é influenciado de forma errada quando o Governo não se preocupa em dar uma educação de qualidade para a população.

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